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Ba Ka Khosa lança ‘Cartas de Inhaminga’

Foi lançado, na passada quinta-feira, dia 13, no Auditório do BCI, em Maputo, o livro “Cartas de Inhaminga” do escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa. A obra, chancelada pela Alcance Editores, teve o apoio do BCI e reúne 19 crónicas dispersas pela imprensa.

“Se quisermos situar estas crónicas é de um tempo não muito longínquo, de tertúlias que aconteciam em todos os lugares onde Ungulani se fazia presente”, começou por referir o apresentador da obra, também ele escritor, Marcelo Panguana.

Classificando o amigo como um “escritor desassossegado”, Panguana revelou que “Ungulani foi praticando este género, a crónica, nos intervalos entre os livros que ia escrevendo, alardeando uma escrita irreverente, interventiva e, sobretudo, cativante.”

Depois dissertou sobre a crónica em Moçambique: “Está-se nos tempos da exuberância da crónica. Aqui em Moçambique havia uma crónica feita por gente da terra. Original, colorida, saborosa como as tangerinas de Inhambane. Foi nessa altura que Ungulani se fez presente e as suas crónicas começaram a despertar atenção.”

Depois, foi a vez de Ba Ka Khosa tomar o microfone, arrebatando a assistência que enchia a sala. Resumiu as ‘Cartas’ em duas frases: o direito de pensar diferente. O direito de sentir. “Nestes mais de 40 anos de independência sofremos de uma fobia castrante: o medo de desafiar a doutrina oficial, o discurso do dia. Nestes mais de 40 anos, tivemos de entrar em jogos de cintura muito ao jeito do jogo de capoeira evitando lances, não querendo ferir o oponente, enfim, querer-se safar, como se diz na gíria.”

Depois citou o amigo, e como ele, fundador da revista Charrua, Eduardo White, que queria eu País para todos. “Esta é a minha geração, a geração da Charrua, a geração que recusou por princípio alinhar no espírito cortesão então em voga. Estas cartas a ela pertencem”, referiu Ungulani. Por contraposição lembrou também que pertenceu à Geração 8 de Março, “a geração de Francisco Esaú Cossa [o seu nome de baptismo], a geração dos funcionários zelosos, cumpridores das orientações centrais. É a geração que não ousou questionar mas que cumpriu sempre. Hoje essa geração, a caminho dos 60 anos, anda aos fins-de-semana atrás de blocos, cimento e pedra tentando construir a casa do tal Homem Novo. A eles também dedico estas Cartas.”

Já no final deixou um recado: “Precisamos de autonomizar os discursos. Queremos que o discurso literário, científico, desportivo, económico, informático, jornalístico e todos os outros discursos possíveis, não sejam contaminados pelo discurso político. Que todos os discursos tenham o seu lugar de honra na grelha de partida. Que haja pluralidade, que haja democracia.”

Maputo, aos 17 de Abril de 2017